‘A letra é o sentido maior dentro da própria música’, revela Hélio Flanders antes de show no Sesc

O show solo destaca referências literárias do cantor e compositor que está escrevendo um romance para ser lançado em breve

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'A letra de canção é uma realidade', reforça Hélio Flanders

Literatura e música se fundem e se confundem nesta terça-feira (23.04) no Sesc Arsenal. Na ocasião, a partir das 19h, quatro autores mato-grossenses lançam o selo editorial independente ‘Arcada’. E a partir da 20h, numa harmoniosa simultaneidade artística, o vocalista do grupo Vanguart apresenta o show solo “Helio Flanders & As Folhas de Relva”, uma apresentação poético-musical permeada pelas referências literárias do cuiabano que afirma que “a letra é o sentido maior dentro da própria música”.

E a ligação do cantor e compositor com a literatura não se dá apenas poética e musicalmente. Em entrevista ao Pensar Cultura, ele admite que sempre escreveu prosa e está “preparando um livro agora, um romance, com alguns poemas no meio”. Porém ainda não definiu um possível título e tampouco a data para o lançamento. “Talvez saia esse ano ainda, talvez ano que vem… Logo mais veremos”.

No que diz respeito à relação entre literatura e música, Flanders acredita que o Nobel de Literatura concedido ao músico Bob Dylan, em 2017, rompeu qualquer tipo de fronteira que ainda pudesse haver entre as duas formas de expressão artística, uma vez que as pessoas se deram conta de que a letra de canção é objeto de estudo em faculdades de Letras e Literatura. “A letra de canção é uma realidade”, reforça Flanders.

HELIO FLANDERS & AS FOLHAS DE RELVA

Enquanto seu romance permanece como mistério, os fãs podem continuar apreciando sua poesia musical. O show “Helio Flanders & As Folhas de Relva” é uma evidente mostra desta inclinação literária do artista, pois é praticamente uma ode a Walt Whitman (1819-1892), considerado o pai do verso livre, inclusive “Folhas de Relva” é o título da obra mais célebre do americano.

Neste show, Flanders mescla suas canções com trechos de poemas do livro ‘Folhas de Relva’, de Walt Whitman

Ele conta que conheceu o trabalho de Whitman há mais de dez anos e que este contato mudou sua vida. E não por acaso a apresentação desta terça é inspirada nesta ligação entre eles. Inclusive, há algum tempo, Flanders faz traduções livres da obra do poeta, apenas para ele mesmo ou para mostrar para pessoas próximas.

Então, um dia pensou que poderia mesclar trechos dos poemas do americano com suas próprias canções, o que resultou no show “Helio Flanders & As Folhas de Relva”, que já foi apresentado em Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre, e agora desembarca em sua terra natal.

“A proposta é passar adiante essa voz. Acho que mais do que um poeta, o Whitman é uma voz democrática, livre…”, ressalta Flanders, e acrescenta que o poeta segue sendo muito relevante e que, por isso, considera importante apresentá-lo às pessoas. Afinal, para o cantor, trata-se de uma “coisa muito forte, muito simbólica. E eu acho que [o show] vai ser bem bonito”, pontua.

REFERÊNCIAS LITERÁRIAS/MUSICAIS

Flanders comenta que o pai sempre gostou de poesia e lhe apresentou, quando ainda era muito novo, alguns poemas de Augusto dos Anjos. Alguns anos mais tarde, quanto tinhas uns 12, música e poesia já se confluíam em suas veias. “Descobri ‘The Doors’ e comecei a estudar inglês para entender as letras”, relembra.

A influência que poetas como William Blake (1757-1827) e Charles Baudelaire (1821-1867) exerciam sobre Jim Morrison, vocalista do grupo norte-americano, despertou a curiosidade de Flanders, que passou a pesquisar sobre suas obras. “Foram os primeiros caras que eu li quando comecei a conseguir entender do que eles falavam”.

Inclusive, acrescenta Flanders, “O Casamento do Céu e Inferno – 1793”, de William Blake, foi uma obra de grande impacto em sua juventude. O livro é composto por uma sequência de aforismos, nos quais o autor estuda a moralidade convencional, proclamando que o homem não se reduz à simples dualidade bem/mal, representada por alma/corpo.

Em seguida, a obra de Arthur Rimbaud (1854-1891), mais um da lista dos chamados “poetas malditos”, povoou a mente do jovem Flanders.Comecei a ler essa galera. E fatalmente fui atrás da música que trazia letras que, de alguma maneira, acompanhavam isso. Então, ‘The Doors’, ‘Lou Reed’, ‘Leonard Cohen’…”.

Até que, aos 15 anos, houve outro momento decisivo na formação musical/literária de Flanders: “Descobri o Bob Dylan”. Assim, fascinado por suas letras, ele as imprimia e levava para a escola. “Costumo dizer que eu mais li do que propriamente ouvi o Dylan”. Um ano depois foi a vez dos Racionais MC’s lhe impressionarem pela densidade das composições. “Então, naturalmente, quando faço meu trabalho, procuro dar muita importância pra isso (letra)”, conclui.

ARCADA

E, nesta terça, enquanto Flanders se apresenta, os autores Danilo Fochesatto, Lorenzo Falcão, Júlio Custódio e Rodrigo Maciel Meloni lançam oficialmente o selo editorial independente ‘Arcada’.

O selo surgiu da vontade dos autores de terem suas ideias publicadas da forma mais autoral possível. E a falência do atual modelo de publicação, via grandes editoras, talvez tenha antecipado a realização desse sonho.

E enquanto rola o som, eles estarão autografando suas obras recém-lançadas: “Distribuidora Falcão – versos no atacado e varejo (L. Falcão)”; “Você derrubou coisas pelo caminho (J. Custódio)”; “Lá, onde uma porta jamais parou de bater (D. Fochesatto)”; e “Coitado do homem cujos desejos dependem (R. Meloni).

Hélio Flanders inclusive comenta que um dos livros que está lendo é justamente “Você Derrubou Coisas Pelo Caminho”, de Júlio Custódio. “Indefectível. Um dos livros mais originais de poesia que eu li nos últimos anos”, elogia o músico/escritor.

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