Arquiteto cuiabano de 89 anos planejou Rodoviária, Miguel Sutil e Centro Político

Arquiteto, professor, historiador, escritor e artista plástico, Moacyr Freitas escreveu mais de uma dezena de livros sobre a história da Cidade Verde

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Moacyr é “pai do Centro Político Administrativo” - Foto - Marcos Vergueiro

A população cuiabana é composta pelos “paus rodados” e pelos “de chapa e cruz” – pessoas que vieram de outros lugares e os que nasceram aqui. No que diz respeito aos paus rodados, muitos chegaram pela Rodoviária Engenheiro Cássio Veiga de Sá. A rodoviária, que recebe cerca de 2 milhões de passageiros por ano, é um dos projetos arquitetônicos mais simbólicos da capital. O projeto é do arquiteto Moacyr Freitas, 89, responsável também pelo Centro Político Administrativo e Avenida Miguel Sutil, dentre outros importantes marcos urbanísticos da capital.

Portanto, aproveitando a deixa do tricentenário cuiabano, destacamos a obra do arquiteto Moacyr Freitas, prestes a completar 90 anos. Além de arquiteto, ele é professor, historiador, escritor e artista plástico, e, acima de tudo, um apaixonado por Cuiabá, tanto é que já escreveu mais de uma dezena de livros sobre a história da Cidade Verde, ilustrados por ele mesmo, como é o caso da obra “História Ilustrada de Cuiabá: dias difíceis nos arraiais”.

Nascido no bairro do Porto, Moacyr também é reconhecido como um dos professores fundadores da Universidade Federal de Mato Grosso.

Terminal Rodoviário Engenheiro Cássio Veiga de Sá

Um novo tempo de renovação da cidade, com novas intervenções urbanas, vieram entre os anos de 1937 e 1945, com a edificação, a exemplo, do Liceu Cuiabano e a Ponte Cuiabá – Várzea Grande. Altos prédios e grandes avenidas começaram a surgir entre os anos de 1960 e 1970. Até 1980 foi intensificado o processo de verticalização da cidade, época em que surge o arrojado Terminal Rodoviário Cássio Veiga de Sá.

Obras da Estação Rodoviária Cássio Veiga de Sá (2.º piso construído)

E não estamos falando de qualquer rodoviária, trata-se de uma das mais belas do país. À época chamada de “o melhor terminal rodoviário da América Latina”. Sua estrutura possui três andares, com uma grande rampa de acesso e vãos livres. Atualmente recebe, por ano, 2 milhões de passageiros e conta com 22 viações que fazem o trajeto de todos os cantos do país até Cuiabá e daqui para onde for. “Uma rodoviária referência. Ainda guardo o cartão de um representante da Companhia do Metropolitano de São Paulo, que veio à Cuiabá para ver o projeto de perto”, recorda Moacyr Freitas.

Segundo ele, o primeiro projeto era diferente. Apresentava a rodoviária um pouquinho mais fechada, portanto, um projeto mais caro.

“Então o governador José Garcia Neto me pediu para realizar um novo estudo no intuito de baratear a construção. Foi então que surgiu a ideia dos vãos livres. Estava entrando na moda uma nova estrutura de concreto alongado, para evitar muitos apoios. Um processo moderno para a época, porém, aqui (em Cuiabá) não tinha nenhum escritório que desse suporte para esse tipo de construção.  Foi quando encontrei o premiado arquiteto Paulo Mendes da Rocha e consegui realizar o projeto com sucesso. Àquele tempo, uma construção muito ousada”, se orgulha.

Com estrutura de concreto protendido e apoios a cada 34 metros, tratava-se de uma construção muito à frente do tempo. Um projeto que avançou 40 anos sem nenhuma grande alteração. Inaugurada em 1979, quatro décadas depois, permanece tão moderna quanto antes. “Com a expectativa de um novo futuro, para tantas pessoas que chegam das cidades do interior ou de outros estados brasileiros, chegar em Cuiabá pela rodoviária com essa imponência, traz um quê de esperança”.

Centro Político Administrativo

Autor de importantes projetos da cidade, Moacyr é também o “pai do Centro Político Administrativo”.  Foi ele quem indicou o local que viria a ser o mais importante núcleo administrativo da cidade, abrigando todos os poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário). Ainda mais que isso, foi ele quem idealizou todo o complexo e ainda guarda o primeiro estudo da empreitada. A região tinha a promessa de ser a “Brasília mato-grossense”, se valendo de uma área de mais de 6.800 m².  

“No governo de Fragelli, eu fiz uma sugestão para ele”, diz sorrindo. “Eu disse ao diretor do Departamento de Obras do seu governo, o Engenheiro Sátyro Pohl Moreira de Castilho, que tinha um estudo, baseado em todas as dimensões da cidade. Achei que deveria haver um centro comercial e em outra região, um complexo administrativo que concentrasse as autarquias do Estado separadas do município. E foi assim que os órgãos do Estado ocuparam o local”. Um grupo de técnicos, coordenados pelo engenheiro Castilho, desenvolveu e detalhou o projeto do CPA.

A ideia era que houvesse três lagos para refrescar o clima, aproveitando os mananciais que têm na região. “Daí, recentemente, fizeram o Parque das Águas. Ainda está em tempo”, sugere. “Pensei em tudo, até no nome, que a propósito era para ser outro. Por mim, nunca seria Palácio Paiaguás. Na época falavam que aqui era o Portal da Amazônia, então, porque não, Palácio da Amazônia ou algo parecido? A paiaguá foi a nação indígena que mais guerreou, mas eles estavam protegendo suas terras… Entretanto, ainda dou razão aos líderes paiaguás, afinal de contas, aqui era região de domínio deles, nós somos os invasores”.

A inspiração para a elaboração do projeto partiu de um jogo de dominó. “Se você reparar, as primeiras construções foram feitas tal qual um dominó. Um prédio ligado ao outro. Mas daí, veio o secretário de obras e fez as secretarias separadas. Mas a gente aguenta, o arquiteto tem que aguentar dessas também”, se diverte.

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