Fotógrafo evita sensualidade do nu para retratar beleza crua

Marcelo Sant’Anna não faz correções estéticas para não reforçar culto à imagem e trabalha com alto contraste para sublinhar intenção dramática

“Os corpos falam sobre as pessoas que os habitam”. A partir desta concepção pessoal, Marcelo Sant’Anna decidiu iniciar um projeto fotográfico cuja proposta é “buscar a imagem que a pessoa precisa ver pra se sentir bem consigo mesma”. Neste sentido, aposta na fotografia de nu, porém, pontua o artista, “busco algo que passa longe de sensualidade”.

Ele procura uma beleza que não necessariamente atravesse ou se deixe atravessar pela sensualidade, “uma beleza mais crua, a beleza pela beleza, que não tenha a ver com o desejo do outro, uma beleza que tenha a ver com o olhar para si mesmo”, explica.

No entanto, por trabalhar com a nudez, tanto feminina quanto masculina, não descarta a possibilidade de que alguns interpretem suas obras através de um viés erotizado.

Mas isso não o incomoda, pois sabe que a partir do momento que se publica algo, este material está sujeito à interação e interpretação subjetiva do público. “Você não é dono do sentido que as pessoas vão dar para o que você está fazendo”, comenta.

E embora o projeto esteja na fase inicial, Marcelo já fotografou uma série de homens e mulheres, e também um casal. Porém, dentre todos que já posaram para suas lentes, uma pessoa é especial. Trata-se de Dorotti, sua própria avó, que aos 77 anos se despiu de qualquer tipo de pudor diante do sensível olhar do neto. (Detalhes sobre ensaios no fim da matéria)

O TEMPO, A VIDA E O CORPO

Todavia, voltando à premissa de que os corpos falam sobre as pessoas que os habitam, é justamente nessa questão que reside o interesse do fotógrafo. Ele acredita que os corpos “são registros das trajetórias das pessoas, das decisões que tomaram, das escolhas que fizeram”, portanto, complementa Marcelo, “cada marca de expressão, cada ruga, tem sua história, tudo surgiu em algum momento. É o corpo testemunhando o tempo. Tudo fica no corpo”.

Por isso, suas fotos buscam trazer “a narrativa da vida das pessoas”. E a vida, ora, a vida… A vida é como ela é. Não se corrige traços, nem se alinha linhas. C’est la vie. E uma fotografia que retrata o tempo da vida no corpo (ou vice-versa) jamais se reteria aos retoques. “Não faço tratamentos… Correção de imperfeições de pele…”, ressalta.

E O QUE SÃO IMPERFEIÇÕES?

Mas esta decisão não se trata apenas de uma escolha estética. Muito pelo contrário. É pensada “justamente no sentido de questionar isso: ‘o que são imperfeições? O que o fotógrafo está fazendo quando corrige a pele de alguém?”, questiona Marcelo.

Ele considera isso uma questão muito delicada, que beira a fronteira da ética profissional. “Você dizer o que é feio, o que é bonito… Pô, pesado isso! Cada um tem seu corpo. E o que é bonito e o que é feio são concepções muito individuais, subjetivas”, complementa.

RELAÇÃO COM A PRÓPRIA IMAGEM

Foram justamente essas questões, que intrigam o fotógrafo desde os tempos da faculdade, que o fizeram delimitar este tema. “Essa coisa de como cada pessoa precisa se enxergar pra se sentir bem consigo mesma, e todas as projeções que a gente faz em cima disso. Enfim, como as pessoas se relacionam com as imagens de uma forma geral e, principalmente, com as próprias imagens”.

Marcelo afirma que, neste momento, o culto à imagem é algo sintomático, e não por acaso é a raiz de muitas angústias e aflições contemporâneas, por isso é fundamental refletir a respeito.

“É importante entender que a relação que a gente tem com as imagens é ensinada, a gente aprende a significar as coisas. E essa significação começa a partir de referências culturais, simbólicas, que pairam sobre a gente o tempo inteiro, desde o momento que a gente nasce”, argumenta.

E acrescenta não ser casual o fato de muitos destes padrões serem impostos. “Não é à toa, existe um propósito, um ‘projeto de beleza’ que sustenta todo um segmento de mercado”. E neste contexto, continua o artista, muitas pessoas se mostram “cruéis consigo mesmas porque são ensinadas a enxergar assim, e acabam buscando uma beleza ideal, um padrão”.

DRAMATICIDADE EM LUZ E SOMBRA

E a própria estética das fotografias, marcadas por um alto contraste entre luz e sombra, dialoga coerentemente com a proposta do projeto. “Como o assunto que eu estou buscando tratar é delicado, profundo, busco criar uma fotografia com essa profundidade dramática através da luz e da sombra”, revela.

Ele explica que este é um recurso comum em filmes que têm como proposta intensificar o efeito dramático, e cita dois gêneros como exemplo: suspense e ficção-científica. Enquanto uma comédia romântica, em contrapartida, “é mais clean, com sombras menos marcadas, então traz mais leveza”, pontua.

Portanto, ao trabalhar com esta estética que define como “mais pesada”, Marcelo transmite ao público – independente de quem tenha ou não conhecimento técnico de fotografia – uma maior densidade dramática.

O FOTÓGRAFO

Marcelo Almeida Sant’Anna nasceu em Campo Grande-MS, morou a adolescência no litoral de São Paulo e vive em Cuiabá desde 2009. É apaixonado por cinema e trabalha desde os 16 anos com audiovisual, inclusive é editor dos vídeos do portal “Cidadão Cultura”.

Dentre as áreas artísticas que compõem o cinema, a fotografia sempre lhe causou maior fascinação. “Passei a me interessar não só pela fotografia em movimento, que é o cinema, mas pelo estudo da fotografia em si, desde o início, que a coisa da foto parada mesmo”, relata.

Assim, passou a acompanhar o trabalho de renomados profissionais da área, como Matt Haber, Sylvie Blum, Gab Dias, Belovodchenko Anton e Thomas Holm. “De uma hora para outra, comecei a me enxergar não só como uma pessoa que apreciava aquele tipo de arte, mas percebi que estava com vontade de fazer aquilo”, relembra.

Então, após muita pesquisa para entender as próprias motivações e interesses, aliado ao conhecimento teórico e técnico que já dispunha, se propôs a fotografar profissionalmente.

ENSAIOS

A princípio, Marcelo fez ensaios com pessoas conhecidas, afinal precisava de um portfólio para este projeto, e agora pretende levar a ideia adiante. Como é o começo de um trabalho, ele oferece quatro pacotes com preços bem razoáveis (5 fotos – R$ 150 / 10 fotos – R$ 300 / 20 fotos – R$ 450 / 30 fotos – R$ 600). Para marcar ensaios, basta entrar em contato através das redes sociais do artista, que é também onde ele divulga os trabalhos.

Facebook: https://www.facebook.com/marcelo.almeida.7505

Instagram: https://www.instagram.com/marcelo_sant/

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