Lucas Kroester propõe a ‘morte do dançarino’ em espetáculo de despedida

‘Hai-Kai’, definido como um poema em forma de dança, marca seu afastamento dos palcos como ato de resistência

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Em 1968, Roland Barthes propunha a “morte do autor”, uma concepção literária que sugeria que a identidade do escritor fosse anulada do texto, restando apenas a identidade das personagens. Meio século depois, em 2019, Lucas Kroester propõe a “morte do dançarino” num espetáculo cujo poema se apresenta em forma de dança. Intitulado ‘Hai-kai’, a estreia acontece nesta sexta-feira (12.04), justamente no dia em que Lucas completa 30 anos, e repete a dose no sábado (13), ambas as apresentações às 21h no Cine Teatro Cuiabá. A entrada custa R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

Estas duas performances marcam uma interrupção na carreira de Lucas. Talvez definitiva, talvez temporária. Ele prefere deixar em aberto, mas é certo que irá se afastar dos palcos. Seja como for, enquanto Barthes propunha a “morte do autor” numa tentativa de silenciar a voz de quem escreve para que a personagem tenha vida, Lucas propõe a “morte do dançarino” como ato de reflexão e resistência por parte do artista, e para isso opta por um silêncio/afastamento autoimposto.

“Essa escolha de me silenciar é porque eu preciso repensar a dança. Então preciso matar esse dançarino de até agora”, explica Lucas. Mas não se trata apenas de questões estéticas, é também um ato político e pessoal.  

Ele cita, como exemplos desmotivadores para o fazer artístico, a intolerância e intransigência do atual presidente, os inúmeros tipos de violência e os constantes cortes de incentivos para a cultura. “Não é preguiça, é falta de vontade pelos acontecimentos diários”. E acrescenta que, neste contexto, não vislumbra muitas possibilidades de “continuar dançando profissionalmente de uma maneira digna”. 

Porém ressalta que não se trata de uma posição conformista ou de resignação. “Silenciar enquanto bailarino tem a ver com precisar respeitar o meu tempo, o que também é um ato de resistência”. Neste sentido, reforça a tese citando uma antiga tradição japonesa, o haraquiri, um suicídio ritualístico cometido por guerreiros em nome da honra. “Para não se render ao inimigo, o samurai tira a própria vida num ritual”.

HAI-KAI e HARAQUIRI

A simbologia e a estruturação deste ritual, inclusive, conduzem todo o desenrolar do espetáculo. Segundo a tradição japonesa, o haraquiri pressupõe três passos: um banho de purificação; um último poema acompanhado de uma derradeira dose de saquê; e, finalmente, o golpe fatal desferido contra o abdome utilizando a própria espada.

Se valendo destes três passos para a consumação do haraquiri, Lucas decidiu compor um Hai-Kai, forma poética japonesa dividida em três pequenos versos. Porém não um Hai-Kai literário, mas dançarino, o que soa igualmente poético. “Eu fui atrás da possibilidade de um corpo-poema”, explica.

Portanto, o espetáculo ‘Hai-Kai’, por abordar o haraquiri, invariavelmente culmina na morte do dançarino. E assim como a estruturação em versos do Hai-Kai literário e a cronologia do ritual suicida, o espetáculo também se divide em três atos. “Uma dança que sonha todas as outras danças que não realizei. Um banho, um poema, um brinde e um golpe fatal no espaço”, antecipa o dançarino.

Também é importante destacar que o Hai-Kai tradicional tem como proposta uma síntese do tempo vivido. O primeiro verso olha para o futuro; o segundo dialoga com o passado; enquanto o terceiro trata do presente. O presente de Lucas, no caso, é a confrontação com uma nova fase da vida sombreada por um contexto político e social desesperanço. “Completar 30 anos em si já traz tantas reflexões […] Completar 30 anos no Brasil atual, enquanto artista, parece potencializar qualquer crise, sensação de impotência e imobilidade”, reflete.

Entretanto, acrescenta que embora pareça cada vez mais difícil seguir se movendo, se forçando a mover, ser resistência, ainda assim decidiu passar o aniversário em cena, dançando, ainda que seja “para expurgar o que tem de ruim aqui, uma dança que não quer mais dançar, uma dança que insiste, mesmo que seja a última dança”. Afinal de contas, conclui, “eu procuro esse corpo-poema, mas um corpo-espada, um corpo combatente”.

FICHA TÉCNICA

Criação e performance: Lucas Koester

Desenho de luz e cenário: Lucas Koester e Carolina Argenta

Figurino e co-criação: Einstein Halking

SERVIÇO

Espetáculo de Dança ‘Hai-Kai’

Onde: Cine Teatro Cuiabá

Quando: 12.04 / 13.04 – ambos às 21h

Entrada: R$ 20 (inteira) / R$ 10 (meia) / R$ 10 + 1L de leite (meia solidária)

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