Sonhos: Benjamim, Bachelard e Nambiquara – por Anna Maria Ribeiro

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Anna Maria Ribeiro
Anna Maria Ribeiro – Escritora Pesquisadora com pós-doutoramento em Ciências Sociais PUC/SP

Sobre o sonho, Walter Benjamin, alemão ensaísta, crítico literário, filósofo, sociólogo e tantas outras coisas mais, disse que sua linguagem “não está nas palavras, mas sim antes delas. Nela, as palavras são produtos acidentais do sentido, no qual se encontra a continuidade sem palavras de um fluxo. O sentido se esconde dentro da linguagem dos sonhos na maneira em que o faz uma figura dentro de um desenho misterioso.”

Não foi por conta de Benjamin e muito menos de Gaston Bachelard (O direito de sonhar, A água e os sonhos, O ar e os sonhos) que passei a dar mais créditos aos sonhos. O alemão e o francês em nada são responsáveis por minha desatenção aos sonhos. Mas, a mudança veio quando passei a morar na aldeia Sapezal, na Terra Indígena Nambiquara, a Oeste de Mato Grosso, junto aos indígenas da etnia Nambiquara, especialmente com os grupos do Cerrado.

Na crença dos índios da etnia Nambiquara, durante os sonhos e transes, a alma deixa o corpo e, às vezes, pode fazê-lo definitivamente, quando a decrepitude física, a doença ou a destruição das funções vitais apagam qualquer desejo de viver.  Essa crença na sobrevivência da alma, simbolizada pela sombra, conduz o Nambiquara à comunicação com os mortos, com os espíritos desencarnados e também com os seres sobrenaturais.

Em suas crenças religiosas, um pajé, em sua língua wanintesu,deve também conhecer a substância dos vegetais, relacionar-se com seres sobrenaturais (ancestrais e da natureza) e ter sonhos premonitórios.  Estas virtudes o levarão, certamente, às Montanhas Sagradas.  Ele ainda conduzirá outros homens até lá, a fim de iniciá-los e/ou reafirmar sua condição visionária e curadora. Um pajé Nambiquara, portanto, precisa ser dado aos sonhos premonitórios, às visões, aos transes e aos desdobramentos.

O pajé aprende a ter capacidade de sonhar adequadamente, ver claro no sonho e sonhar, acima de tudo, sem que isto redunde em infortúnios para si. Sonhos, hisãnisu, consistem em um importante veículo utilizado pelas almas ancestrais para visitar familiares vivos. O sonho, pode trazer infortúnio, principalmente se aparecer um ancestral falecido. Nomes para crianças recém-nascidas também podem chegar pelos sonhos do pajé.

Precisei vivenciar experiências oníricas dos indígenas para levar a sério o ato de sonhar. Mas, o que é levar um sonho a sério? Misturando Benjamin, Bachelard e Nambiquara é atribuir significações que nascem em espaços próprios. É saber ler uma espécie de escrita que não tem palavras e sim imagens que desenham um itinerário que só poderá ser percorrido pelas mãos da interpretação, porque sua linguagem foi escrita antes do sonho ser sonhado.

 Em criança, nunca entendia porque um doce – arredondado, de massa fofa, recheado com creme de baunilha e polvilhado com açúcar de confeiteiro – recebia o nome de Sonho, se vez por outra sonhos me acordavam amedrontada no meio da noite e me faziam chorar.

Anna Maria Ribeiro – Escritora Pesquisadora com pós-doutoramento em Ciências Sociais PUC/SP

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