‘Escolha uma música e dance comigo’: Intervenção em estação de ônibus cativa passageiros

Quem aguarda o ônibus escolhe uma música e os artistas dançam com a pessoa

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Caio Ribeiro e Marcella Gaioto, integrantes do Coletivo Coma a Fronteira, durante a intervenção - Foto - Pedro Duarte

O coletivo ‘Coma Fronteira’ desenvolve ações culturais e artísticas nas mais variadas linguagens, plataformas e espaços. Inclusive, recentemente, teve uma zine (publicação literária alternativa) selecionada para participar de importantes festivais de literatura independente. E o grupo segue em constante movimentação. Agora, por exemplo, está em atividade com o projeto “Escolha uma música e dance comigo”.

Trata-se de uma intervenção em que o trio (Mar­cella Gaioto, 21; Caio Ri­beiro, 22; e Pedro Du­arte, 20) caminha pela estação de ônibus da Praça Alencastro carregando uma plaquinha de papelão com a sugestiva frase: “Escolha uma música e dance comigo”. No mais, apenas um celular e um fone de ouvido para que a promessa do cartaz seja colocada em prática.

A proposta do coletivo é a ocupação do espaço público. A intervenção faz parte de um laboratório de experimentações – Foto: Pedro Duarte

A primeira ação aconteceu no dia 11 deste mês. Desde então, estão presentes no local às segundas e quintas-feiras, a partir das 16h30, e vão seguir na estação até o final de fevereiro. “Como a gente pega um ônibus e desembarca de dentro dele, as cortinas se abrem quando a porta do ônibus abre e a gente chega”, brinca Caio.

A proposta do coletivo é a ocupação do espaço público. E essa intervenção faz parte de um laboratório de experimentações neste sentido. “Escolha uma música e dance comigo” é a primeira atividade deste laboratório.

REAÇÃO DAS PESSOAS

O grupo explica que, a princípio, a maioria das pessoas se recusam, outras se mostram desconfiadas e algumas perguntam se tem algum custo financeiro. No entanto, logo que as primeiras se abrem para a prática, outras já se aproximam para participar também.

E como as pessoas na estação vão e vem a todo momento, o público sempre se renova. “Às vezes você comeu a fronteira da insegurança e da vergonha, mas aí essas pessoas embarcam no ônibus e depois vêm outras, então é preciso cativar de novo”, comenta Caio.

As pessoas que esperam a chegada do ônibus se divertem durante a intervenção – Foto: Pedro Duarte

Todavia, após devorarem a fronteira da timidez alheia, os pedidos são diversos. Hino religioso, rasqueado, rap, funk, sertanejo, pop, rock internacional e nacional, lambadão… Enfim, já rolou de tudo um pouco. Mas, afinal de contas, quem são os artistas mais tocados? Segundo o coletivo, a carioca Anitta e a dupla Zé Neto e Cristiano têm sido os mais solicitados.

E assim como as músicas, as pessoas que as ouvem também guardam suas especificidades. Uns dançam extrovertidamente, outros são mais contidos e alguns vão se soltado aos poucos. Porém, independentemente de qual é o som ou de quem puxa a dança, os membros do coletivo acompanham sem ouvir a música, apenas seguindo os movimentos.

“As pessoas até perguntam: ‘mas vocês também estão ouvindo?’ E não. A gente dança conforme o ritmo da pessoa, porque isso faz parte da ideia do nosso trabalho, que é essa ideia de contágio”, pontua Caio.

E além da relação de troca com quem participa, ele explica que também há uma outra relação que se estabelece entre todos os presentes. “As pessoas ao redor sorriem e olham com alegria para isso. Porque é uma pessoa dançando e elas não estão ouvindo o que ela ouve. Só estão vendo uma pessoa se movimentar junto com outras pessoas dançando e que também não estão ouvindo nada”.

E ele acrescenta que essa indagação coletiva sobre o que estaria passando (ou tocando) na cabeça da pessoa que faz aqueles movimentos também faz parte da proposta da intervenção.

Outra situação que chamou a atenção do grupo é que algumas pessoas de mais idade se mostram surpresas com o fato de se poder encontrar praticamente qualquer música em um celular. De acordo com Caio, surgem perguntas do tipo “mas como que tem todas as músicas? Tem tudo? Qualquer uma?”. Ele explica que esse fator acabou tornando o celular o elemento mais complexo da intervenção, algo que inclusive os surpreendeu.

CONCEITO DE NÃO-LUGAR

A ideia da intervenção partiu de estudos do coletivo. Um dos conceitos que abordam é o de Não-Lugar, que, grosso modo, são lugares de passagem onde as pessoas não conseguem se fixar, isso por conta do próprio contexto social e político das grandes cidades.

Então perceberam que a estação Alencastro poderia se encaixar neste contexto. “As pessoas ficam sentadas ali, impacientes, esperando um ônibus que vai tira-las dali”, frisa Caio. Essa concepção de espaço é diferente, por exemplo, da de uma praça, que, seguindo esta linha de raciocínio, seria um lugar de permanência.

Analisando estes dois espaços (a praça e a estação), o coletivo concluiu que existe uma fronteira no local. “Se isola as pessoas da praça, que é um lugar onde elas podem estar, e se trancafia outras ali dentro da estação que estão esperando o ônibus”, reflete.

Além disso, o Coma a Fronteira aponta uma tendência em se seguir o ritmo das demais pessoas numa metrópole. E levando em consideração a maneira como a sociedade se estrutura, a coletividade estaria se tornado mais séria, sisuda, inexpressiva e sem interação entre os indivíduos.

No caso da Estação Alencastro, por exemplo, Caio acredita que “apesar de ser uma caixa fechada, com ar condicionado, e com 50, 60 pessoas lá dentro… Está todo mundo sozinho no seu próprio mundo e só esperando pra sair dali”.

Portanto, embasados por estes conceitos e pela vivência de cada um, objetivam alterar a estrutura vigente, propondo trocas e vínculos afetivos entre as pessoas. No caso da intervenção, foi pensada no sentido de alterar a experiência do lugar respeitando a capacidade de assimilação das pessoas.

“Proporciona a experiência de estar naquele lugar, que é um lugar de passagem, não é um lugar de permanência, mas ouvindo a música que ela gosta, que ela é fã”, conclui Caio.

 

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